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29 de Março de 2010

LEGITIMIDADE

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Quase sete anos depois da edição da Lei que torna obrigatórios os conteúdos de história e cultura africanas e afro brasileiras, os negros continuam lutando pelo reconhecimento de suas contribuições culturais e por aceitação no espaço escolar.

              É nesse cenário que aparece hoje a questão da inserção social do negro, quadro que ganha contornos próprios no ambiente escolar, espaço ora de ratificação de preconceitos, ora de inflexão de costumes e visões. Trata-se de uma situação complexa, cujas raízes estão diretamente relacionadas a uma cultura da ignorância. De modo geral, faltam conhecimento, referência e memória à população em geral, dentro e fora da sala de aula. Percebe-se muitas atrocidades ainda cometidas nas escolas do país.

              Ainda está presente no imaginário coletivo a imagem do homem negro como indolente, mas ao mesmo tempo mais forte do que os outros, o que teria sido a causa de sua escolha para a escravidão. Confundido com a malandragem no passado está associado á criminalidade nos dias de hoje. As mulheres, por sua vez, são vistas como úteis para prestar serviços domésticos como babás, empregadas e cozinheiras, féis, porque fora do padrão de beleza de branco, está.

              Não há percepção coletiva de que o histórico de falta de oportunidades leva ao reforço do estigma. O que explica em parte a ideologia do branqueamento. Exemplo disso o escritor Machado de Assis, que, mulato, perdeu, para alguns, contato com seu universo de origem.

             Até quando o assunto é samba há polêmica. É consensual a importância do negro e de seu universo festivo e religioso na formação daquela que viria a ser considerada a música símbolo do País. Nessa linha, o samba é visto como um movimento de continuidade e afirmação dos valores culturais negros, uma cultura não oficial e alternativa, que seria uma forma de resistência cultural ao modo de produção dominante da sociedade do inicio do século XX. Mas há quem lembre a expropriação cultural do negro, exemplificada na estratégia da sociedade branca dominante, que enfraqueceu o caráter étnico das associações carnavalescas dos negros e do próprio samba como gênero musical, impedindo que se tornassem elementos de construção de uma consciência negra.

             Como tratar de um câncer sem admitir que ele existe? 

             O sociólogo Valter Silvério, coordenador do Núcleo de Estudos Afro brasileiros da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), recorda o episódio ocorrido em 2005 quando jovens franceses indignados com a discriminação, a pobreza e o desemprego queimaram milhares de carros nos subúrbios de Paris. "Não há democracia moderna com a população plural que não tenha adotado uma política de igualação, embora a política de cotas por si só não seja suficiente".

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